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Nunca tinha visto os olhos de Elza Góis. Ela não levanta a cabeça, quase nunca. Seus produtos estão dispostos em dois assentos de um ponto de ônibus. Os olhos – e as mãos – estão sempre em direção das balas, amendoins, chocolates e chicletes. Ela só levanta os olhos quando trabalha, quando alguém lhe diz boa noite, quando não ouve.

Aliás, quem falou que difícil é entrevistar deputados, cientistas e presidentes? Difícil é entrevistar Elza Góis, que não ouve, não entende e não se faz entender.

É nesse esforço de conversa que você poderá sentir as mãos quentes de Elza, apesar do vento que corre pela avenida Dr. Arnaldo. Sim, ela vai tomar suas mãos e te puxar bem perto pra poder te ouvir. É assim que vai enxergar seus olhos azuis – seriam azuis ou eu é que estava verde de fome? – e ver o rosto mais enrugado que jamais viu.

Quase todos os dias passo por Elza Góis, mas nunca conversei com ela. Sua altura – minúscula – as mãos enrugadas – até a alma. Tudo me transmitia distância.

Mas foi assim que conheci Elza Góis, quando senti fome e decidi comprar amendoins. Minha janta daquele dia.

Elza volta. Quase todos os dias passo por ela.

Comida de rua em Santa Cruz de la Sierra, Bolívia

Comida de rua é uma prática mais que espalhada pelo mundo, mas algo me diz que os países pobres (ou “em vias de desenvolvimento”, pra quem é disso) têm mais opções ou escolhas mais interessantes.

Fim-de-semana desses fui visitar a família em Santa Cruz de la Sierra, Bolívia. Bate-volta, coisa rápida, de 2 dias e 3 noites pra rever dezenas de tios, tias, primos, primas e quetales, reencontrar metade das minhas raízes, se é que as temos. E ver a quantas anda o movimento em prol da autonomia do Oriente Boliviano, um must na família.

Em meio a tudo e todos, a culinária cruceña, dos sabores da infância e do hoje também: salteñas (a versão local das empanadas argentinas, mais conhecida por aqui), zonzo (mandioca e queijo amassados juntos e assados), empanadas (estas, sim, pastéis fritos), sopa de maní (de amendoim, é dizer, mas servida com batatas-fritas ou banana), majadito (um arroz mexido, com carne, frango ou peixe, encimado por um ovo frito), cuñapés…

Cuñapés bolivianos (buenareceta.blospot.com)

Cuñapés bolivianos (buenareceta.blogspot.com)

Cuñapés rendem um parágrafo. Adoro Minas Gerais, mas a tia Ermengarda de Poços de Caldas não pode despedir-se de nós para ir visitar Tancredo Neves em “pessoa” sem antes experimentar um cuñapé de Santa Cruz. O cuñapé põe o petisco brasileiro no bolso. Tia Ermengarda seguramente iria para o Além com um sorriso de satisfação nos lábios.

Noite de domingo, tráfego pesado num dos anéis rodoviários da cidade, que tem 8, quase todos eqüidistantes do Centro histórico (porque uma cidade de mais de 400 anos também se pode planejar). Dezenas de carros embolados em uma rotatória, sem motivo aparente. Mas que logo aparece: num desses enormes painéis eletrônicos de rua, do tipo que SP tinha quando era uma Cidade Suja sem Lei, a seleção boliviana penava contra a chilena. E os carros simplesmente paravam pra assistir, assim de simples, no meio da rua, como se diante da tevê de casa.

E é claro que, enquanto o jogo acontecia, dezenas de bolivianos vendiam uma ou outra comida de rua para os que viam a partida em público e bebiam paceña (a cerveja símbolo de La Paz, uma das poucas coisas do Altiplano Boliviano ainda muito populares e bem-quistas no Oriente) e mocochinche (refresco frio, feito a base de pêssegos desidratados. Tem seu (enorme) público ainda que não me seduza).

Qué raros son esos bolivianos! – pensei.

E todas essas delícias, com o colorido típico boliviano, também nas ruas de São Paulo.

Feira Kantuta: todos os domingos, das 11h00min às 19h00min, na praça Kantuta (Rua Pedro Vicente, 625, Pari), próxima à estação Armênia do metrô.

o último prato de rua na liberdade
Para terminar o passeio pela feira da Liberdade, fomos olhar os doces. Uma das únicas barracas vende waffles (nada orientais, e o moço que vende também não é oriental – como a maioria dos que servem as barracas. Mas a dona da barraca é) e raspadinhas, com groselhas e outras opções. Segundo a vendedora, muito simpática, aquele dia a raspadinha não está saindo muito. “É o frio”, diz ela, apesar de ainda não estar muito frio.
Acabamos escolhendo um waffle mesmo, e deixando a raspadinha para a próxima vez. Meio correndo para o carro, porque há uma chuva absurda se aproximando e está ficando escuro ás 16h, o waffle não está particularmente quente, e dá um trabalho danado comer – ele foi mergulhado numa calda de chocolate, que agora escorre pelos guardanapos. E assim acabou meu dia na Liberdade – muitas, muitas pessoas, inclusive eu, comendo as mais diferentes coisas, se acotovelando para pegar um yakisoba, um espetinho de codorna, um acarajé e uma coca. Tudo isso em 2 quadras.

Yakisoba pequeno, 7 reais. Aceita?

Depois do tal do espetinho, parti para a parte oriental de verdade, a Liberdade mais clichê: o yakisoba. A única barraca de yakisoba fica mais ou menos no meio do quarteirão – aliás, na maioria dos casos, só há uma barraca para cada tipo de comida. O yakisoba é, aparentemente, o prato mais popular da rua, então a fila para pegar um prato subia o restante da quadra.
Apesar de o prospecto não ser dos melhores, a fila andou rápido – em 15 minutos já estavamos quase no caixa para pegar a senha e pagar, para então pedir o yakisoba. Até conseguirmos pegar 2 yakisobas pequenos (que não são nada pequenos), sair do meio do povo e começar a comer, foram mais 15 minutos. Neste meio tempo, aproveitamos para experimentar outra especiaria: bolinhos de lula. Para o meu paladar, não foi dos mais agradáveis, mas também é bastante popular entre os que esperam na fila do yakisoba, ao lado dos sushis.
Mas toda a espera vale a pena – o prato é muito bom mesmo. Numa daquelas embalagens de alumínio, com hashis ou garfos de plástico, quase metade das pessoas na rua parecem comendo o mesmo que eu. Yakisoba misto – carne, frango, vegetais e macarrão – com muitas opções de molho (recomendação do dono da barraca: molho de maçã – delicioso). Como a maioria dos clichês, este é bem justificado, e vale a espera.

Onde: Liberdade
Quanto: 7 reais (pequeno), 8 reais (grande)
Atendimento: rápido e atencioso
Comida: excelente

Matérias e mais matérias anunciavam o final de semana de comemorações do centenário da imigração japonesa no Brasil. Então aproveitei oi “clima” e fui, pela primeira vez, conhecer a feira da Liberdade. O post anterior, sobre os Acarajés da Liberdade, também me deixou bem curiosa – afinal, porque haveria acarajés na Liberdade?
Chegando perto da feira, comecei a perceber que a idéia talvez não tivesse sido das melhores – o trânsito e as ruas abarrotadas de gente de todos os tipos mostraram o que viria a seguir – ruas abarrotadas de gente. Depois de um tempinho olhando as quinquilharias variadas, chegamos na rua das comidas. Yakisoba, espetinhos, acarajé, raspadinhas, e muitos, muitos tipos de comida japonesa, com lulas, polvos e afins.
No meio de tanta gente, não sabia nem para onde ir, por onde começar. Decidi optar pelo mais seguro: um espetinho de queijo coalho. A barraca não era a mais cheia, mas ainda assim era difícil fazer o pedido. Além da dona da barraca, uma senhora japonesa com sobrancelhas pintadas com um lápis azul escuro e uma maquiagem que resistia a fumaça dos espetos. Além do queijo (que estava delicioso, meio tostado, mas não queimado), as opções ainda traziam alcatra, picanha, linguiça, linguiça com queijo, frango – e dois sabores mais estranhos, codorna e rã. Não tive coragem, admito. Ainda queria um yakisoba, e achei que começar a tarde comendo uma codorna num palito, quase inteira, ia ser um pouco de exagero.

Onde: Feira da Liberdade
Preço: 3 reais (queijo coalho)
Atendimento: rápido
Comida: boa

Aos sábados e domingos, na Praça da Liberdade, é possível passear entre as barracas de artesanato e matar a fome na parte da feira reservada à alimentação. Há comida japonesa, crepes, sucos, espetinhos, doces e salgados. Uma ótima sugestão é saborear um delicioso acarajé e bater um papo com Sr. José Domingo Ponce, o simpático dono da movimentada barraca que, há 35 anos, serve a iguaria baiana no bairro japonês.

Gente de todo lugar experimenta o prato. O Sr. José orgulha-se de já ter feito um acarajé que foi parar no outro lado do mundo. Pergunto se o que embarcou para o Japão foi a massa ou o produto pronto e recebo a informação de que a massa não agüenta e azeda. O acarajé foi enviado ao Japão já frito. “O vôo dura 12 horas, o acarajé pronto dura um dia inteiro”, informa.

O ingrediente principal da massa é o feijão fradinho que depois de frito é recheado com uma farta porção de vatapá e alguns camarões secos por cima. Ao contrário do que se pode pensar, o resultado é uma massa leve e saborosa. Para quem é chegado, o prato pode vir quente (apimentado). O acarajé é servido quente e custa R$ 5,00.

Quem ainda tiver fome pode experimentar o cuscuz ou a caia, um tipo de tempurá adaptado pelo Sr. José a partir de uma massa de torta. A base da massa é de milho verde com camarão, bacalhau e legumes. A caia custa R$ 4,00.

Dica: chegue cedo. O acarajé começa a ser servido pouco antes do meio-dia. Quanto mais tarde, mais gente. Aos domingos, à tarde, pode demorar até para conseguir chegar perto da barraca.

Tudo sobre acarajé: http://ibahia.globo.com/salvador459anos/

Onde? Quando? Como?

Praça da Liberdade, região central de São Paulo.

Ao lado da Estação Liberdade do Metrô.

Sábados e domingos, das 10h às 17h.

Num post anterior, surgiu a dúvida, partilhada por uma especialista em comida de rua, a comida de feiras livres seria exemplo de comida de rua. Claro que sim!

Há muito tempo (desde sempre?), as feiras de São Paulo vendem comidas prontas, que se podem comer na hora, e não apenas ingredientes pra se levar pra casa. Pastéis, garapas e doces são o exemplo mais óbvio mas, mais que isso, há quem se farte apenas com as amostras grátis dos feirantes? Isso não é, literalmente, comer na rua?

Tirando a prova, estive ontem na feira do meu bairro, montada todos os domingos na rua Oscar Freire, entre a rua Cardeal Arcoverde e o viaduto sobre a avenida Sumaré. Mais que pastéis fritos na hora (que não têm como não ser bons: pastéis são bons por definição!) e garapa (para paladares adocicados, não o meu), a experiência de feira, se vivida plenamente, equivale a provar as frutas da estação, como garantia de que o produto que se levará pra casa é bom. Ontem. comprovei isso com a mexerica e o kiwi, mas não me animei a levar o abacaxi pra casa, por exemplo.

Ir à feira e não provar frutas aleatoriamente é reduzir a experiência! Se é pra não provar, desista logo da feira livre e vá comprar suas frutas e verduras do tio Abílio e da tia Lucila. A qualidade é boa e o supermercado deles é lugar de gente feliz!

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