Como a tradição oriental se encontra e se perde na tradução da avenida Paulista
Entre as vantagens de se morar perto da avenida Paulista, certamente se encontra a grande disponibilidade de lugares para se comer. Se o mês acabou de começar, você tem opções como o América, vários shoppings centers - dos mais variados tamanhos, e alguns restaurantes mais elegantes em ruas adjacentes, em especial no lado dos Jardins (com a notável exceção do Frevo, na Augusta). Para o meio do mês, há fast foods em qualquer lugar que se procure, de McDonald’s a Bob’s, com direito a um Subway no meio do caminho. E no final do mês, quando fica difícil até contar as moedas, as ruas da Paulista oferecerem todo tipo de Comida de Rua que você conseguir imaginar.
Sabendo disso, saí de casa com destino certo: iria resenhar o já famoso yakisoba da Paulista, tradicionalmente vendido em pontos específicos (como perto do prédio da Gazeta) por orientais em seus carrinhos. Mas o meio da tarde me reservava uma surpresa.
Procurei em quase todos os lugares “tradicionais”, como entre a rua Itapeva e a alameda Rio Claro, na esquina da Paulista com a Padre João Manuel, em frente ao McDonald’s do lado do Center 3, em frente ao prédio da Gazeta, e nenhum sinal da iguaria. A pé, fui e voltei da estação Consolação do metrô até depois da estação Brigadeiro, e nada. O primeiro desencontro do dia já havia acontecido.
Como ainda eram cinco horas da tarde, resolvi esperar o carrinho da esquina da Pe. João Manuel enquanto tomava um mate com guaraná no Rei do Mate que há por ali. Embora não seja tecnicamente “comida de rua”, o preço ali não é dos mais salgados (está para algo como “após três quartos de mês”), o atendimento é cordial (uma das atendentes até tentou me ajudar a encontrar um yakisoba, meu objetivo primário) e o mate é caprichado.
Mas, terminado o chá, o relógio em frente ao Conjunto Nacional já marcava 17h30 e nada de yakisoba. Voltei todo o caminho até a Gazeta, e eis que me ocorreu que a reforma das calçadas da Paulista (uma empreitada no mínimo questionável da prefeitura) poderia atrapalhar o movimento do comércio de rua, alimentício ou não.
Embora o atual calçamento da avenida date de mais de 30 anos atrás, a “revitalização” que tem sido feita recentemente gerou algumas controvérias. Gilberto Kassab, prefeito de São Paulo (DEM), é pré-candidato à reeleição agora em outubro, e o timing da reforma em uma área nobre da cidade seria coincidência demais se não fosse eleitoreiro. Mais que isso, os transtornos causados tanto aos pedestres (que têm que caminhar em zigue-zague) e aos motoristas (com a interdição das calçadas, faixas da avenida, em diversos trechos, foram isoladas para servirem de passagem aos desmotorizados) podem gerar, após a conclusão da reforma, aquela sensação de alívio típica do jegue no meio da sala de estar.
Especificamente hoje, boa parte das calçadas em frente ao prédio da Gazeta está interditada. Aguardei até quinze para as seis antes de dar por encerrada minha aventura, e já estava conformado em retornar outro dia quando percebi, escondidos na alameda Campinas, um casal de orientais com o carrinho de yakisoba.
Finalmente encontrei, ali, naquele cantinho escuro e escondido, o Santo Graal que buscava hoje. Mas, mesmo quando o encontro aconteceu, outro desencontro se manifestou. Ao perguntar ao simpático casal se eles topariam dar uma entrevista…
— Não fala, não fala!, — disse a senhora, com uma cara de quem entendia tudo que eu dizia, e ao mesmo tempo não entendia nada.
Pedi meu yakisoba. O prato é excelente, mesmo que simples e feito sob a poluição de uma das ruas mais movimentadas de São Paulo. Macarrão especial para yakisoba, um vegetal que não consegui distinguir se era acelga ou chicória (chuto o primeiro), frango e carne vermelha em pedacinhos, cebola e um molho especial que você não vai saber fazer em casa. É claro que você vai encontrar yakisobas mais refinados em restaurantes especializados, mas dificilmente pela bagatela de R$ 3,00 o que eles chamam de “pequeno” (eu, pessoalmente, recomendaria o “grande”, de R$ 4,00, apenas para aqueles dias em que você está sem comer há uma semana). Para acompanhar, a variedade padrão de refrigerantes da The Coca-Cola Company, R$ 2,00 a latinha.
Ainda tentei conversar um pouco. Mostrei uma banca de jornais ali do lado para ver se conseguia fazê-los entender que trabalhava para um “jornal” (nem quis arriscar tentar explicar o conceito de “blog”). Nada. A nacionalidade deles? Perguntei se vinham do Japão, da Coréia, ou…
— China! Chinês! A gente chinês, — e a senhora desenhou um mapa imaginário no ar, tentando mostrar de qual região da China eles tinham vindo, com tanto sucesso quanto eu tive ao tentar explicar o conceito de “entrevista”.
O carrinho é concorrido. Nos poucos minutos que fiquei lá, pelos menos dez outros consumidores apareceram, o que deixou o casal um pouco preocupado, pois eles queriam mudar o carrinho de lugar, para o outro lado da rua. Quando um policial apareceu, o casal perguntou se ele queria um yakisoba, que o oficial gentilmente recusou, demonstrando certa intimidade com o casal. Aproveitei a deixa e descobri, com o policial, que eles ficam ali escondidos das 17h às 18h, e que depois atravessam a Paulista e ali trabalham, dessa vez em ponto nobre, até as 20h30. Pensei comigo, “se eu soubesse disso antes de andar a Paulista inteira quase duas vezes…”
Perguntei qual era o nome deles, e nenhum sinal de entendimento. Perguntei também se eu poderia tirar uma foto deles, e dessa vez fui bem compreendido: nem pensar. Um outro cliente, também habitué, comentou que, com um pouco mais de sorte, poderia tê-los visitado num dia em que a filha deles estivesse presente, pois essa sim falava português. Bom, azar.
Eles então seguiram seu rumo, para o lado Jardins da avenida Paulista, e eu tive que me contentar com essa foto da placa da alameda Campinas para ilustrar esta presente missiva. Como conclusão, fica o seguinte: a comida é excelente; as opções de bebida poderiam ser um pouco mais variadas, embora sejam suficientes; mas não espere a simpatia e a cordialidade do brasileiro na hora de conversar com os vendedores. Eles até tentaram me agradar a princípio, mas no final, quando eles estavam saindo e eu tentei entregar-lhes o endereço desse blog, creio que o que a senhora me respondeu, de longe e acenando, mesmo que eu soubesse traduzir, não poderia publicar.
Serviço - Yakisoba na Paulista
Por pessoa: de R$ 5,00 a R$ 6,00
Comida: excelente
Atendimento: bom
Simpatia: inexistente
Local e horário: na alameda Campinas, perto da esquina com a avenida Paulista, do lado Centro, das 17h às 18h; e na Paulista, perto da esquina com a Campinas, do lado Jardins, das 18h às 20h30.

O preço e o sabor compensam a falta de tato dos vendedores..
achei q vc não fosse comer
Ugo xenófobo!
Hum, ok, eu deveria saber disso após tantos anos de ECA, mas vou perguntar assim mesmo: “é necessário pedir permissão pra pessoa pra fazer uma crítica da comida que ela vende na rua?”
Não perguntei pra Aline do tabuleiro se eu a podia entrevistar… Fui conversando com ela naturalmente. E ela respondeu tudo. Seriam meus belos olhos azuis? Hehehe
Abs y suerte!
texto enorme…cansa ler. deveríamos pensar mais “blogmente” e não jornalísticamente e aprender a fazer posts e não matérias… embora seu texto tb nao seja uma matéria.
vou ler os próximos
Excelente, Ugo !
Há três anos, eu já tentava falar com esses chineses, mas parece que a resposta segue a mesma:
“Não fala, não fala!, — disse a senhora, com uma cara de quem entendia tudo que eu dizia, e ao mesmo tempo não entendia nada.”
E vc tem razão: o yakissoba é bom, apesar da poluição, mas com um molho que jamais conseguiríamos fazer em casa.